Por alguma razão do tipo ir fechar a janela porque tava ventando demais, lembrei do hit de 92, Vento, Ventania. Essa música sempre me lembra de uma viagem de ônibus que fiz pro Rio só com meus pais, aos 7 anos. Pra compensar a falta dos meus irmãos, por algum motivo aquele ônibus tava cheio de crianças mais ou menos da mesma idade que eu e até o fim da viagem a gente já tava trocando minigames. Como viagem de ônibus + bando de criança = cantoria de hits, alguém começou a cantar essa música e eu lembro de rir horrores da reação de alguém ao "...pois vou puxar as barbas de Deus".
- CÊ VAI O QUÊ, MENINO?
Então eu sempre lembro dessa música num contexto meio lúdico e até desconfio que na atual conjuntura da nossa sociedade o indivíduo que admita apreciar Biquíni Cavadão a sério esteja sujeito à discriminação (como um amigo meu que até ano passado tinha Janaína como toque do celular), mas eu devo dizer que essa canção, Vento Ventania, produz imagens belas. Ah, vai, gente: Quero juntar-me a você e carregar os balões pro mar / Quero embolar as pipas nos fios, mandar meus beijos pelo ar. Acho singelo.
Mas isso tudo só pra dizer que eu não entendo mesmo, mesmo, me foge realmente à compreensão POR QUE RAIOS uma banda que produz esse tipo de letra se chama BIQUÍNI CAVADÃO.
Não é nem dizer que o nome seja estranho pra uma banda, levando-se em conta que hoje em dia a imagem de um traje de banho muito cavado pode ser associada a diversos (sub)gêneros musicais, tais quais o funk carioca e o pagode. Mas abstraindo que você já conhece a cara deles desde 1983, cê diria que uma banda chamada Biquíni Cavadão ficaí cantando sobre o vento e tem esses integrantes que têm toda a pinta de gente comportada que almoça todo domingo com a avó?

TEM QUEM DIGA?
(E vocês dois aí, não adianta posar de cool com óculos escuros, não.)
Mas aí eu tenho um outro causo contrário pra contar, dentro dessa mesma temática. FAST FORWARD de 1992 para 2005. Como é do conhecimento de alguns de vocês, nessa época além da faculdade eu estudava Canto na Federal. Entre a aula de teoria musical e a prática, tinha um buraco de uma hora na minha grade, que era quando eu podia socializar, porque a teoria começava muito cedo e a prática era divida em várias turmas muito reduzidas (4 pessoas somente). Aí eu ouvia falar que a 4ª pessoa da minha turma que nunca aparecia era uma menina muito ocupada que tava sempre viajando em turnê, que ela era do grupo de dança de alguém chamado Silvano Salles.
Quem tá familiarizado com o nome já matou a história, mas quem não está (como eu à época não estava), vem comigo. Eu não fazia idéia de quem fosse Silvano Salles, mas algo a respeito do nome me fez acreditar de que se tratava de alguma companhia de dança contemporânea de responsa, do tipo que se apresenta no TCA, sabe. E aí um dia a menina apareceu lá pra fazer a aula, em todo seu nervosismo & timidez & pequenice. Quase teve mesmo um peripaque de nervoso (não vou entrar em detalhes, mas foi punk) só de ter que fazer os exercícios vocais na frente de 3 outras pessoas + a professora. Aí depois da aula eu fui conversar com ela e ela disse que mesmo sendo uma classe pequena (minúscula, né?), ela ficava muito intimidada cantando na frente de pessoas "profissionais como você". Oi? Se eu já me senti mal de ver alguém naquela situação, imaginar que fazia sentido pra alguém no mundo se intimidar com a minha presença foi pior, porque minha reação inicial seria dizer "CÊ TÁ LÔCA, MULHER?", mas eu tive que explicar pra pessoa que eu era mesmo muito n00b, as outras meninas também, que aquilo eram só exercícios, não tinha nada a ver com profissionalismo ou talento e que mesmo que tivesse ela tinha passado pelo mesmo teste que a gente (que foi cantar sozinha numa sala pra uma mesa com duas pessoas, momento American Idol na minha vida).
Aí eu perguntei sobre o trabalho dela como dançarina e foi aí que, como um raio, a verdade me atingiu.

O retratado: Silvano Salles. Cantor. de. Arrocha.


Percebam que nada faz sentido. O cara tem um nome artístico classudo desses e é cantor de arrocha. Uma menina que sobe no palco com ele e dança arrocha pela Bahia afora quase vai pra enfermaria por ter que cantar na frente de 4 pessoas, sendo que uma delas sou eu, em toda minha meiguice & ternura (mwah!). Já o Biquíni Cavadão ficaí cantando sobre vento, sol, timidez e inocência e tem esse nome que a avó deles não deve ter aprovado. Se não se julga um livro pela capa, pelo título muito menos. É o que parece, né?





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